
Dizem que há uma caixa dentro do peito, onde a tristeza se guarda. Gostava de saber como ela é, mas como nem sinto o peito, é um bocado complicado. O meu coração até que é saudável. Tenho aurículas e ventrículos que sabem o que fazem e pulmões de nadador salvador, mas como não sinto o sangue estremecer há muito tempo, não tenho peito. Se o peito for aquele lugar onde dói, quando se sangra de saudade, se é no peito que se fazem sentir as batidas mais rápidas que nos fazem sentir mesmo vivos, eu não tenho peito.
Desde aquela vez, na paragem, em que ele entrou no Expresso, que estou assim. Ele abraçou-me e, depois, quando me largou, senti um aperto no peito - sim, nessa altura ainda o tinha, de certeza que o tinha.
Depois de ele nunca mais ter voltado como meu, perdi a noção do tempo e do espaço. Olho para o céu e vejo o mar, olho para o mar e vejo outro mundo qualquer.
Quando me lembro da primeira vez que nos beijámos, dá-me vontade de chorar, mas como as lágrimas também saem daquela caixinha, os olhos permanecem secos e ainda me sinto mais vazia.
Ter uma parte de nós que pertence a alguém que já não faz parte da nossa vida é muito estranho e eu não quero viver mais assim. Quero conseguir abrir a alma e deixá-lo partir de vez e pode ser que, nesse momento, a caixa se abra e eu consiga libertar toda a tristeza que trago no peito - que não sinto.

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